Laços de família
Bibliografia no nextread
18 obras de Clarice Lispector em português, com capa, sinopse e o que ler depois de cada uma.
Esta é a obra de Clarice Lispector que o catálogo do nextread cobre em português — de 1998 a 2025 — reunida em um só lugar: cada livro com capa, sinopse completa e, quando existe, a lista do que ler depois dele.
Laços de família
O texto de Clarice Lispector costuma apresentar ilusória facilidade. Seu vocabulário é simples, as imagens voltam-se para animais e plantas, quando não para objetos domésticos e situações da vida diária, com frequência numa voltagem de intenso lirismo. Mas que não se engane o leitor. Em poucas linhas, será posto em contato com um mundo em que o insólito acontece e invade o cotidiano mais costumeiro, minando e corroendo a repetição monótona do universo de homens e mulheres de classe média ou mesm...
A obra
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O texto de Clarice Lispector costuma apresentar ilusória facilidade. Seu vocabulário é simples, as imagens voltam-se para animais e plantas, quando não para objetos domésticos e situações da vida diária, com frequência numa voltagem de intenso lirismo. Mas que não se engane o leitor. Em poucas linhas, será posto em contato com um mundo em que o insólito acontece e invade o cotidiano mais costumeiro, minando e corroendo a repetição monótona do universo de homens e mulheres de classe média ou mesmo o de seres marginais. Desse modo, o leitor defronta-se com a experiência de Laura com as rosas e o impacto de Ana ao ver o cego no Jardim Botânico. Pequenos detalhes do cotidiano deflagram o entrechoque de mundos e fronteiras que se tornam fluidos e erradios, como o que é dado ao leitor a compreender acerca da relação de Ana, seu fogão e seus filhos, ou das peregrinações de uma galinha no domingo de uma família com fome, ou do assalto noturno de misteriosos mascarados num jardim de São Cristóvão. E, como se pouco a pouco se desnudasse uma estratégia, o cotidiano dos personagens de Laços de família, cuja primeira edição data de 1960, vai-se desnudando como um ambiente falsamente estável, em que vidas aparentemente sólidas se desestabilizam de súbito, justo quando o dia a dia parecia estar sendo marcado pela ameaça de nada acontecer. Nesta coletânea de contos, os personagens – sejam adultos ou adolescentes – debatem-se nas cadeias de violência latente que podem emanar do círculo doméstico. Homens ou mulheres, os laços que os unem são, em sua maioria, elos familiares ao mesmo tempo de afeto e de aprisionamento. — LUCIA HELENA, Pós-Doutorada em Literatura Comparada pela Brown University, EUA, e autora do livro Nem musa, nem medusa: Itinerários da escrita em Clarice Lispector
«Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca.» Em permanente metamorfose, os livros de Clarice Lispector desafiam limites e rasgam convenções. Revisitação de pontos centrais no universo literário de Clarice Lispector, Água viva é pura incandescência da inventividade e da linguagem. Uma enigmática voz feminina – toda audácia, delírio e sedução – conduz a narrativa. Esta mulher, cujo nome não sabemos, deseja mudar de ofício e tornar-se escritora. Ela é um eu que reivindica a ocupação de um espaço e de um tempo, que se dirige a um tu misterioso e que propõe o ousado alinhamento de humanos e bichos, natureza e linguagem, rumo ao centro da vida, que Clarice perseguiu em todas as suas obras. Contestando limites e sem cedências à convenção, este livro inaugura um espaço partilhado entre quem escreve e quem lê: nesta mulher, na sua inquietação ou na sua letargia, nas suas fraturas ou nas suas pulsões, reconhecemos uma humanidade em estado bruto. O tom fragmentário é contrariado por uma cadência de demandas e reflexões tão profundamente individuais como peremptoriamente universais. Um livro desconcertante, que oferece uma hipótese de fusão entre escrita e leitura, forma e tema, corpo e pensamento: radicalmente inovador, ao suspender as fórmulas de representação romanesca, e irresistivelmente transgressor, na exposição das costuras da ficção e da voz lírica. Água viva é um triunfo de Clarice Lispector, que aqui ensaia uma nova escrita de si e do mundo. «Água viva é a fala tardia e nocturna, por vezes quase sonâmbula [...] de uma pintora que deseja mudar de meio de expressão e procura assim dar conta, nesta noite 'mais longa do que a vida', do seu nascimento enquanto escritora [...]. Mais do que assistir a este parto, é dado ao leitor participar nele e na descoberta do (i)mundo, com o susto de quem vê o informe tomar forma.» Joana Matos Frias Os elogios da crítica: «Clarice Lispector tinha uma inteligência lapidar, um instinto visionário e um sentido de humor que ia desde o deslumbramento ingénuo até à comédia maliciosa. Um corpo literário impressionante que não tem par na literatura.» Rachel Kushner «Uma escritora verdadeiramente notável.» Jonathan Franzen «Lispector escrevia como se nunca ninguém tivesse escrito antes. Foi um dos génios do século XX, na mesma liga de Flannery O'Brien, Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa. Extraordinariamente original e brilhante, sedutora e inquietante.» Colm Tóibín «Uma das escritoras mais misteriosas do século XX.» Orhan Pamuk «Brilhante e inclassificável. Elegante, culta, temperamental, Lispector é uma artista emblemática que pertence ao mesmo panteão de Kafka e Joyce.» Edmund White «Em Água viva, espécie de longa missiva a um destinatário desconhecido, Clarice Lispector deixa o pensamento deambular sem freio, evocando a força do momento, a escrita, a pintura, ou a sua própria solidão. O resultado é um livro de singular vigor.» Le Monde «Clarice Lispector é enigmática, mística, contraditória e filosófica. Mesmo que comece em território familiar [...], rapidamente se desvia para um reino em que os sons se tornam discordantes e a paisagem se faz indiscernível, assumindo tonalidades imprevistas.» The New York Times «Uma das maiores escritoras do último século.» The Guardian «As suas imagens deslumbram até quando o seu significado é mais obscuro, e quando escreve sobre aquilo que a incomoda é a encarnação da lucidez.» The Times Literary Supplement
"O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas." A experiência da protagonista desta aprendizagem mostra afinidades tanto com as provações da bela Psiquê, do mito grego, quanto com a mística aventura da alma, ao atravessar a noite escura no Cântico Espiritual de São João da Cruz. Como um quadro cujas linhas mestras o recortassem do grande mistério que tudo contém, este livro, que "se pediu uma liberdade maior", é a narrativa de uma iniciação e um extraordinário hino ao amor. Lóri, a mulher, faz uma longa viagem ao mais profundo de si mesma e chega à consciência total de ser. Diz: eu é; o homem, Ulisses, um professor de filosofia, que possui fórmulas para explicar o mundo, transforma-se em algo mais simples, um simples homem. Ambos serão iniciados: Ulisses fecha os ouvidos para as outras sereias porque só está disponível para Lóri, cujo verdadeiro nome é Loreley, como a personagem de Heine e de Apollinaire, uma ondina ou sereia que costumava atrair para os rochedos os barqueiros do Reno. Na verdade, cada um vai encontrar-se consigo mesmo em face do outro. Por ser trabalho, ascese, viagem, o amor de Lóri e Ulisses vence a diferença, o estranhamento, vence até mesmo a morte, ou o medo da morte. E a entrega finalmente física dos personagens se realiza com força tântrica de êxtase, de epifania. Para Lóri, "a atmosfera era de milagre"; Ulisses "estava sofrendo de vida e de amor". Nada termina, porém, o momento anuncia uma nova aurora: "Ambos estavam pálidos e ambos se acharam belos." Clarice, que se insere sabiamente no possível, fecha com dois pontos a narrativa que começara com uma vírgula. — RACHEL GUTIÉRREZ, Escritora, tradutora e diretora da Associação dos Leitores e Amigos de Clarice Lispector
«Este silêncio é muito grande para mim.» Um livro que espelha a agilidade criativa de Clarice Lispector, a sua livre travessia entre géneros literários e uma obsessiva dedicação à cartografia da paisagem interior da humanidade. Um dos melhores livros do ano | Expresso Este livro reúne treze contos e mais de uma centena de crónicas, ensaios, textos híbridos. Sob o holofote da escrita inigualável de Clarice Lispector, desfilam o aborrecimento quotidiano, o estranhamento do mundo, o enigma da criação artística e uma fundacional solidão. De «Os desastres de Sofia» ou «O ovo e a galinha» a «Instantâneo de uma senhora» ou «Uma imagem de prazer», A legião estrangeira reconstrói ideias sobre erotismo, velhice, laços de amizade, preceitos sociais, valores de família, ligações perigosas. Com este volume, recuperamos a edição original de A legião estrangeira, conforme organizada pela autora em 1964, e até agora inédita em Portugal. Aqui encontramos a escrita vívida de Clarice, infundida de alguma tristeza e algum humor, que diverte e perturba, mas que sobretudo espanta. «Esta é a escrita de uma transgressora. Lispector escreve o que sente, mesmo que o sentimento não tenha nome, e legitima temas historicamente marginalizados nos discursos literários e jornalísticos. Não explica, não ilustra. Escolhe aproximar-se perigosamente.» Isabel Lucas Os elogios da crítica: «Lispector foi comparada a Woolf, Joyce, Proust, Sartre [...]. Quanto mais singular um escritor, mais a crítica procura comparações. Mas, se a lermos o bastante, percebemos que Lispector escapou destas armadilhas: é e não é feminista, pós-modernista, absurdista, mística. Em vez de procurar um estilo existente [...], empreendeu uma busca individual para encontrar 'o símbolo da coisa na própria coisa'.» The Guardian «Lispector escreve sobre a estranheza da vida. [...] Não divide o mundo em partes digeríveis — expande-o para lá da categorização.» Los Angeles Review of Books «Clarice Lispector é enigmática, mística, contraditória e filosófica. Mesmo que comece em território familiar [...], rapidamente se desvia para um reino em que os sons se tornam discordantes e a paisagem se faz indiscernível, assumindo tonalidades imprevistas.» The New York Times «As suas imagens deslumbram até quando o seu significado é mais obscuro, e quando escreve sobre aquilo que a incomoda é a encarnação da lucidez.» The Times Literary Supplement «Clarice Lispector tinha uma inteligência lapidar, um instinto visionário e um sentido de humor que ia desde o deslumbramento ingénuo até à comédia maliciosa. Um corpo literário impressionante que não tem par na literatura.» Rachel Kushner «Uma escritora verdadeiramente notável.» Jonathan Franzen «Lispector escrevia como se nunca ninguém tivesse escrito antes. Foi um dos génios do século XX, na mesma liga de Flannery O'Brien, Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa. Extraordinariamente original e brilhante, sedutora e inquietante.» Colm Tóibín «Uma das escritoras mais misteriosas do século XX.» Orhan Pamuk «Brilhante e inclassificável. Elegante, culta, temperamental, Lispector é uma artista emblemática que pertence ao mesmo panteão de Kafka e Joyce.» Edmund White
contos
Reunião de contos publicada por Clarice Lispector em 1971. Na história que dá título ao livro, uma menina é enrolada dia após dia por uma colega que promete lhe emprestar um livro — e a espera acaba virando a medida do próprio desejo de ler.
Os textos reunidos em Onde estivestes de noite desenham um conjunto heterogêneo, onde é possível identificar o tom das crônicas que Clarice Lispector publicava semanalmente em sua coluna do Jornal do Brasil de 1967 a 1973, reunidas em A descoberta do mundo (1984), como também certa crueza e humor que os aproxima daqueles publicados na mesma época em A via crucis do corpo (1974). Alguns dos textos, além disso, sofreram um deslocamento, pois já tinham sido publicados anteriormente ("Esvaziamento" e "Um caso complicado"), outros foram extraídos de romances e submetidos a ligeiras modificações, procedimentos que indiciam a urgência que a autora tinha de escrever para garantir sua sobrevivência. Passo a passo, as narrativas vão compondo uma cartografia de impressões, sensações, notícias da vida carioca, onde figuram também amigos, referências afetivas e artísticas – Alberto Dines, Fauzi Arap, Raul Seixas, Marly de Oliveira, Nelson Rodrigues, Roberto Carlos, Angela Pralini, personagem que reaparece em Um sopro de vida, e também a escritora, uma "tal de Clarice"–, formando uma série de flashes fotográficos que cristalizam, em imagem, um instante no movimento sem parada da existência. É, aliás, movimento o eixo que enlaça as narrativas desta coletânea. As personagens estão sempre em trânsito. O movimento tanto pode ser obstinadamente direcionado, como pode carecer de leme, pode ter como horizonte a vida, ou a morte. Em qualquer circunstância, no entanto, há um sentimento de solidão e uma zona de silêncio que atravessam essas pequenas peças, o que não impede a narradora de "O relatório da coisa" de dizer: "Acorda-me, Sveglia, quero ver a realidade", e continuar em frente. - BERTA WALDMAN, Profa de Literatura Brasileira e Teoria Literária – UNICAMP/USP "Esfinge, feiticeira, monstro sagrado. O renascimento da fascinante Clarice Lispector tem sido um dos verdadeiros eventos literários do século 21. Ninguém soa como Clarice. Ninguém pensa como ela. Ela não apenas parece dotada de mais sentidos do que os cinco conhecidos, mas também curva a sintaxe e a pontuação de acordo com sua vontade. Ela vira o dicionário de cabeça para baixo, soltando todas as palavras de suas definições, espalhando-as de volta como quer e não é que a língua parece melhor?" — THE NEW YORK TIMES
Cuidado, leitor, este livro requer coragem. Parece ser o desafio lançado por Clarice Lispector no prefácio "Explicação" de A via crucis do corpo, livro de 1974. Nele, a autora simula uma Clarice diferente da que os leitores estavam acostumados desde sua primeira obra, Perto do coração selvagem, de 1944. No entanto, ela é a mesma de sempre, a que nunca se recusou a fitar com os olhos abertos a selvageria do desejo humano, da avidez humana, da sordidez humana. O que se modificou foi o espanto se convertendo em escândalo, o sobressalto em ferocidade. Neste livro, Clarice está próxima à literatura maldita ou, como quer Georges Bataille, próxima à literatura do mal. Afrontando os limites morais, a autora adverte: "Fiquei chocada com a realidade. Se há indecências nas histórias a culpa não é minha." O deslocamento da noção de indecência para o âmbito total da realidade cria um estado de perplexidade no leitor que poderá levá-lo a exclamar como a própria narradora de um dos contos: "A vida era isso, então? essa falta de vergonha?" São 14 textos ficcionais – 13 contos mais o prefácio "Explicação" – compondo para o leitor um panorama de vicissitudes do corpo – o grande personagem destas histórias. O corpo nos seus desarranjos pulsionais, na tirania de seus desejos, nas suas fraturas e feridas, nos seus êxtases. O corpo como bênção e maldição. Como tudo que excede, o que sobra, mas que não chega nunca a suprir a falta primordial. Enigmático e severo, óbvio e exultante. Além do ousado tratamento temático da paixão do corpo (paixão entendida etimologicamente como pathos), o estilo de Clarice está mais depurado e enxuto neste pequeno livro. À primeira vista, se poderia pensar no estilo realista. Não se engane, todavia, leitor: nada é tão simples nem tão evidente quanto parece. O realismo destas histórias encontra-se sob forte pressão e o efeito é sempre desconcertante, tal como no detalhe final do fecho narrativo do conto "Melhor do que arder": "Tiveram quatro filhos, todos homens, todos cabeludos." Aceite o desafio e enfrente o desconcerto, caro leitor. A literatura de Clarice tem força. — ANA CRISTINA CHIARA, Profa. Adjunta de Literatura Brasileira na UFRJ
Dona de uma obra que cruza fronteiras geográficas e de gênero, Clarice Lispector é considerada atualmente uma das mais importantes escritoras do século XX. Nesta coletânea, que reúne pela primeira vez todos os contos da autora num único volume, organizada pelo biógrafo Benjamin Moser, é possível conhecer Clarice por inteiro, desde os primeiros escritos, ainda na adolescência, até as últimas linhas. Essencial para estudantes e pesquisadores, para fãs de Clarice Lispector e iniciantes na obra da escritora, Todos os contos foi lançado nos Estados Unidos em 2015, figurando na lista de livros mais importantes do ano do jornal The New York Times e colecionando importantes prêmios. Agora é a vez de os leitores brasileiros (re)descobrirem por completo esta contista prolífica e singular e seu planeta habitado por bichos, homens e sobretudo mulheres, que se revelam, nas mãos de Clarice, maravilhosos em meio à alegria e ao horror da existência.
As crônicas de Clarice Lispector publicadas no Jornal do Brasil de 1967 a 1973 nos permitem compreender melhor a escritura desta que se consagrou como uma das maiores escritoras do Brasil. Se nos contos e romances o mistério de uma narrativa envolve o leitor num processo quase que iniciático, nas crônicas esse mistério vai aos poucos sendo desvendado, revelando o mundo pessoal e subjetivo da autora enigmática que viveu no Leme, próximo às areias e ao mar de Copacabana, que tanto apreciava. Ao aceitar o convite do JB para escrever uma coluna aos sábados, Clarice Lispector sente a estranheza entre ser escritora e jornalista: "Na literatura de livros permaneço anônima e discreta. Nesta coluna, estou de algum modo me dando a conhecer", comenta na crônica de 21 de setembro de 1968. Gênero leve, ameno, de leitura mais fácil, a crônica traz quase sempre a interpretação de um fato conhecido por todos, investido pela subjetividade de quem comenta o assunto, dando um sabor novo ao acontecido. Com a sua despretensão, a crônica quebra o monumental, o extraordinário, celebrando o cotidiano, o dia a dia e mostra belezas insuspeitáveis através da argúcia, da graça, do humor de quem a escreve. A informalidade investe de leveza uma linguagem cuja densidade busca revelar o segredo das coisas mais simples, o cotidiano transfigurado pelo olhar de Clarice, que redescobre nas Macabéas de todo dia a luminosidade de uma presença estelar. Entre flanelas e vassouras, mulheres simples e humildes se transformam em personagens que se eternizam. Aninha, Jandira, Ivone ou Aparecida são algumas dessas estrelas que saem de suas vidas apagadas para serem reveladas pelo olhar atento e sensível, onde escapa, por vezes, um leve e sorrateiro toque de humor, como no caso da empregada que fazia análise, ou da "mineira calada", que gostava de ler livros complicados. "Esfinge, feiticeira, monstro sagrado. O renascimento da fascinante Clarice Lispector tem sido um dos verdadeiros eventos literários do século 21. Ninguém soa como Clarice. Ninguém pensa como ela. Ela não apenas parece dotada de mais sentidos do que os cinco conhecidos, mas também curva a sintaxe e a pontuação de acordo com sua vontade. Ela vira o dicionário de cabeça para baixo, soltando todas as palavras de suas definições, espalhando-as de volta como quer e não é que a língua parece melhor?" — THE NEW YORK TIMES
"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra." Nesta frase antológica de Clarice existe uma chave para o entendimento do poderoso efeito que seus textos produzem no leitor. Clarice não retrata coisas, fatos ou estados d'alma. O que pode ser dito de modo claro e inequívoco não é bem o que lhe interessa. Mesmo quando parece descrever objetivamente coisas ou acontecimentos, há algo em suas observações que encanta ou perturba o leitor, sem que ele saiba sempre exatamente por quê. O que move sua escritura é a ambição de tornar presente a entrelinha, o sentimento sem nome, os ecos, as ressonâncias, as sensações informuladas, "a realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu". Sua magia é essa. Ela usa palavras como Cézanne manipula suas tintas, como Debussy organiza suas notas e harmonias: para trazer à tona o que de outro modo permaneceria oculto, velado silencioso, na experiência do público. Clarice possui essa magistral capacidade de roçar com palavras aquilo que está um pouco além do que nossa percepção alcança imediatamente. Usando palavras comuns, ela descobre novos mundos. Mas ao utilizar sua matéria-prima, a linguagem, sua pretensão nunca é dar nome aos bois, explicitar sentidos, decifrar enigmas. Ao contrário. Para Clarice, "o esplendor de se ter uma linguagem" deriva justamente do fato de que o milagre da significação jamais se realiza por completo. Escrever, assim como viver, é deixar-se afetar, sofrer o impacto do que não sabemos designar, experimentar o mistério, inventar modos de nomeá-lo, e renunciar a tudo entender. Mergulhar na leitura das crônicas, relatos e fragmentos contidos em Para não esquecer é explorar, junto com Clarice, os recantos clandestinos de nosso cotidiano. — BENILTON BEZERRA JR., Prof. do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Organizado pelas professoras Teresa Montero (doutora em Letras pela PUC/Rio e biógrafa de Clarice Lispector) e Lícia Manzo (mestre em Literatura brasileira pela PUC/Rio, dramaturga e diretora de teatro e TV), Outros escritos é o complemento indispensável à obra completa de Clarice Lispector. Isso por reunir textos inéditos, dispersos ou de acesso restrito de importância capital para o entendimento da obra clariceana, como sua única peça teatral, A PECADORA QUEIMADA E OS ANJOS HARMONIOSOS, escrita no começo de sua carreira e testemunho do seu interesse pela dramaturgia, que a levou a traduzir peças de autores consagrados como Ibsen, Lillian Hellman, Mishima e García Lorca. Encontram-se aqui textos produzidos em seus tempos de faculdade de Direito (debatendo questões cruciais, como o direito de punir), suas primeiras incursões no jornalismo (como repórter da Agência Nacional) e anotações íntimas extraídas de cadernos de notas. Assim como sua única incursão no terreno dos estudos literários, a tão falada (mas pouquíssimo conhecida) conferência "Literatura de vanguarda no Brasil", cujo sucesso da primeira apresentação na Universidade do Texas em 1963 motivou reapresentações em instituições brasileiras. Texto que demonstra inequivocamente que Clarice não era uma escritora preocupada apenas com a própria obra e encastelada em torre de marfim, e sim uma autora sintonizada com as preocupações da literatura de seu tempo e dotada de real capacidade de pensamento crítico, muito embora alegasse não se interessar por questões teóricas e históricas. Fecha o conjunto um documento incontornável: a transcrição da entrevista por ela concedida (em 20 de outubro de 1976) ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, com a participação dos amigos Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti e do diretor do MIS, João Salgueiro. Trata-se da primeira vez em que Clarice discorreu livremente acerca de sua vida e da sua literatura.
Clarice Lispector é uma das personalidades mais citadas na mídia e nas redes sociais, pelas características e força das suas frases. Embora escritas dentro do contexto de cada romance, conto, crônica ou carta, as citações, mesmo isoladamente, têm vida própria, musicalidade e sentido poético. Reunindo mais de 4.500 frases de Clarice Lispector, As palavras e o tempo oferece aos leitores vislumbres de todos os seus livros, servindo como um convite à descoberta da sua literatura. Nesta edição acrescentamos 180 novas citações destacadas e atualizadas com as últimas publicações de sua obra. Esta é uma coletânea que pode ser consultada ao acaso, como quem abre um livro sagrado em busca de orientação para um enigma específico, propiciando ao leitor um primeiro contato com as dúvidas e descobertas refletidas no espelho fiel da alma e do eu profundo de Clarice: a escrita. Edição com ilustrações de Mariana Valente.
Clarice viveu no exterior durante mais de quinze anos, acompanhando o marido diplomata, enquanto suas irmãs permaneceram no Brasil. Mais do que irmãs, eram amigas inseparáveis, apoiando-se desde a ausência da mãe, que partiu prematuramente. As cartas que trocavam eram a forma de manter a conexão, em uma época sem a facilidade das comunicações modernas. Essa troca resultou em uma correspondência refletida nas 120 cartas que revelam a estreita ligação entre Clarice, Elisa e Tania. Sua correspondência também reflete um período histórico significativo, como a Segunda Guerra Mundial, quando Clarice se tornou uma testemunha dos eventos, transitando de Nápoles, marcada pelo conflito, para a calma Berna e a vibrante Washington do pós-guerra. O livro Minhas queridas, de 2007, organizado por sua biógrafa, Teresa Montero, evidenciou este lado de Clarice. Agora, neste Minhas queridas e outras cartas, conhecemos seus cuidados maternais. Como definiu a própria autora, "nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos" ( Todas as crônicas, Rocco).
"Desculpe, não estou mais ouvindo, a distância é grande, minha 'aura' está acabando e o esforço desta comunicação é tão sobre-humano que mal tenho força de assinar", lamentava a jovem Clarice Lispector ao escritor Lúcio Cardoso, num bilhete curto, o silêncio do amigo e leitor cuidadoso de seus primeiros textos. Como revirar a velha caixa de cartas, a recente publicação de Correspondências, de Clarice Lispector, traz à tona os enfrentamentos cotidianos da autora, expostos em 129 cartas trocadas com outros escritores, artistas, intelectuais e familiares, sendo 70 cartas de autoria de Clarice e 59 recebidas por ela. A coletânea — idealizada pela família de Clarice e organizada por Teresa Montero, também autora de uma biografia da escritora — reúne cartas, inéditas em sua maior parte, que permitem a compreensão da produção literária da escritora, assim como um encontro com sua intimidade. Correspondências cobre quatro décadas da vida de Clarice Lispector, da década de 1940 até pouco antes da sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro, em dezembro de 1977. Entre seus correspondentes estão o marido, Maury Gurgel Valente, os amigos Bluma Wainer e Fernando Sabino, com quem manteve uma rica e frutuosa correspôndência, até trocas mais pontuais, como as de Manuel Bandeira e Fernanda Montenegro. Há também cartas que tratam de seu trabalho como romancista e contista, a negociação com editoras e, sobretudo, a necessidade de interlocução expressa por Clarice e o retorno encorajador e maravilhado dos autores e amigos com quem conviveu. As angústias, as descobertas, a relação com os filhos e as amizades, vividas e registradas no Brasil e no exterior, estão presentes nesta coletânea, que permite ao leitor mergulhar no mundo de Clarice Lispector e perceber que o segredo do mito foi o de ser tão humano quanto qualquer um de nós.
A própria autora admitiu: "Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas eu juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra." É verdade. Então, como foi que isso pôde acontecer? É o que Clarice Lispector conta neste livro original e comovente – verdadeiro canto de amor aos animais. Esta nova edição do livro traz belíssimas ilustrações feitas pela neta da autora em homenagem aos 40 anos de sua morte.
Autora de um dos mais intrigantes contos da literatura brasileira – "O ovo e a galinha" – Clarice Lispector também elegeu este animalzinho desajeitado como protagonista do infantojuvenil A vida íntima de Laura. No conto, a galinha é apresentada como um ser que "tem muita vida interior" e, sobretudo, um "disfarce do ovo" – símbolo do mistério da existência. Também em A vida íntima Clarice vai, como de costume, descortinar junto às crianças leitoras o mistério existente sob a vida cotidiana. Tudo a partir do pequeno universo de Laura, uma galinha muito simpática, de pescoço bem feio, casada com um vaidoso galo chamado Luís. Um passeio pelo universo de Laura nos permite notar de que modo a escritora – consagrada por romances, contos e crônicas que tematizam o inefável, o indizível – dialoga com o público infantojuvenil. "É que no fundo eu escrevo muito simples, sabe? Eu não enfeito", dizia Clarice. Em sua incursão pela vida desta galinha, não poderia ser diferente. Simples, sim, mas com muita profundidade – uma das principais marcas da autora. Como todas de sua espécie, Laura dá à luz um ovo, passeia pelo galinheiro, e corre o risco de virar galinha ao molho pardo. Bem ao estilo clariceano, também esta narrativa é pontuada pelas ambiguidades características da vida. Embora seja "bastante burra", Laura consegue se disfarçar e escapar da panela graças à própria esperteza. Embora tenha o pescoço mais feio do mundo, não importa, porque "o que vale mesmo é ser bonito por dentro".
Lançado postumamente, em 1978, Quase de verdade tem como protagonista a força da fantasia e do pensamento na transfiguração da "realidade". Ao lado de Água viva (1973), A hora da estrela (1977) e Um sopro de vida (1978), obras destinadas ao público adulto, o infantojuvenil se caracteriza pela radicalização do mergulho na linguagem e do questionamento de conceitos como realidade/fantasia, verdade/mentira, normalidade/mágica. "Pois não é que vou latir uma história que até parece de mentira e até parece de verdade?", diz o narrador, Ulisses, que assegura: "sou um cachorro quase normal. Ah, esqueci de dizer que sou um cachorro mágico: adivinho tudo pelo cheiro: Isto se chama ter faro." Nesta obra, marcada pelo traço autobiográfico, a história que Ulisses "late" para sua dona, Clarice, é apenas o ponto de partida para o mergulho num mundo fantástico. Com vontade de "ganhar muito dinheiro", uma figueira invejosa "que não dá figos" traça um plano para obrigar galinhas a colocarem ovos continuamente. Ajudada por uma bruxa, a árvore consegue ficar acesa todas as noites, como se o sol batesse nas suas folhas. As galinhas, "pensando que era sempre dia", passam a produzir ovos sem descanso. No entanto, as aves decidem se rebelar e "exigir seus direitos". Estrategicamente, se posicionam no alto dos galhos da figueira "ditatorial", a fim de que os ovos se quebrem ao caírem no chão. Por fim, o plano se frustra, o feitiço acaba e a paz retorna ao galinheiro.
De Natura Florum foi publicado pela primeira vez em 3 de abril de 1971, no Jornal do Brasil (Rio de Janeiro). Já em 1984 foi incluído no volume "A Descoberta do Mundo". Hoje, é lançado no Brasil pela Global Editora, com projeto internacional desenvolvido por Elena Odriozola que Prêmio Nacional de Ilustração, e Alejandro G. Schnetzer. O texto, à maneira de um herbário em verso, é estruturado a partir de vinte e quatro verbetes. As cinco primeiras são definições botânicas gerais, as dezenove restantes são descrições de flores, com uma poética particular. O livro é uma espécie de introdução às obras e estilo literário de Clarice, com fácil entendimento e assimilação. Por ser uma obra que originou do artigo publicado no Jornal do Brasil e por ser de uma escritora muito querida nacionalmente, o lançamento pela Global, casa da literatura brasileira, é de suma importância.
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